Terça-feira, Outubro 26, 2004


E a avó dela morava num sítio sozinha. Era quase o sítio do pica-pau amarelo que via na tevê, sem a boneca falante, a espiga de milho falante, sem o saci e sem a Cuca. Ela sempre procurava pela Cuca, mas nunca a encontrara. Dava pulinhos de alegria quando o pé de manga estava carregado e se lambuzava toda desde as bochechas rosadas ao vestidinho xadrez. E era assim, quase todos os finais de semana a mãe a levava para ver sua avó e correr pelo sítio. Então, chegando lá pela manhã de sábado, avistou algo que nunca antes estivera ali. Foi pisando nas pontinhas dos pés e colocou os dedinhos na cerquinha. Eram, umas coisas esquisitas e engraçadas. Sua avó abraçou-a e beijou-a. "Vovó, o que são essas coisas?" Sua avó lhe explicaram que eram galinhas. "Não, vovó. Galinha é o que vêm dentro da minha empadinha." Sua avó riu e concordou. "Esperei você para dar nome à elas." Haviam duas brancas e uma avermelhada. "Eu quero a vermelha com nome de Empadinha." E assim foi. Todos os finais de semana a menina ia no sítio e corria para ver a Empadinha, e cada vez ela estava maior e mais robusta. E a menina passava horas dando milho e correndo atrás dela pelo galinheiro. Dava ordens a Empadinha para que colocasse ovos. Ela ficara espantada quando sua avó disse que os ovos vinham das galinhas. E ela nunca via, mas os ovos estavam sempre embaixo de Empadinha pela manhã cedinho, e ela queria ver de onde eles vinham. Ela só sabia que apareciam lá. Sua avó deixou os ovos para que Empadinha os chocasse e não deixou a menina pegá-los. Na semana seguinte, haviam pintinhos amarelinhos no cercado das galinhas. A menina ficou encantada. Vários pintinhos meiguinhos e amarelinhos. Num desses almoços de domingo, a mãe elogiara o frango que a avó havia preparado. A menina comeu e lambeu os beiços. No lanche da tarde, a avó fizera uma surpresa para a netinha e lhe preparara várias empadinhas. "Vovó, isso não é feito de galinha?" "Sim, querida. Fiz com a do quintal." A menina correu e se deu conta de que Empadinha não estava mais lá. E desde então, sempre entortava a cara quando via uma empada. Não conseguia comer nem as de camarão, recordava a carinha singela e o biquinho fino daquela galinha avermelhada que um dia fora dela. "Ah, pobre Empadinha."



Amanda, @ 10:04 PM



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A menina capixaba-carioca.
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