
Sexta-feira, Novembro 26, 2004
Não há vagas
O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz, o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila o seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
-porque o poema, senhores.
está fechado:
"não há vagas"
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores
não fede
nem cheira.
Ferreira Gullar
E a gente acha que está passando pelo maior problema do mundo. Nos martirizamos, nos pregamos em nossas próprias cruzes e nos empurramos da beira do penhasco.
E a gente esquece que tem gente que não come, gente que não tem onde dormir, gente que não sabe o que é carinho, gente que passa frio toda noite, gente que sofre violência, gente que não anda, gente que faz quimioterapia, gente que não enxerga, gente que não ouve, gente que não fala.
Tem muita gente por aí.
E o mundo, senhores, às vezes está apenas no nosso umbigo...
Com Que Sobreno-?
Amanda Maia, 18 anos.
A menina capixaba-carioca.
A namorada do Thomaz.
Que faz economia na UFES.
E que não sabe o que faz.
Nem o que escreve.
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